Associação de Bairro

Moradores de Campinas reativam associação de bairro após anos de silêncio

Depois de uma década sem assembleias regulares, vizinhos do Jardim Proença decidiram que chegou a hora de voltar a se sentar na mesma sala, ouvir uns aos outros e transformar reclamação em projeto coletivo.

Marina Costa
Por Marina Costa ·
Ilustração de reunião comunitária no bairro

O contexto de um bairro que queria ser ouvido

O Jardim Proença sempre foi um bairro de portões baixos e conversa na calçada. Nas décadas de 1990 e 2000, a Associação de Moradores do Jardim Proença funcionava como um canal legítimo de diálogo com a prefeitura: organizava mutirões, intermediava demandas de infraestrutura e promovia festas que reuniam gerações inteiras. Mas, pouco a pouco, as reuniões foram rareando. A última assembleia com quórum significativo aconteceu em 2014. Depois disso, o grupo existiu mais no papel do que na prática.

Os motivos são os de sempre — e, ao mesmo tempo, únicos. Houve desgaste de lideranças, conflitos pessoais que se misturaram com disputas políticas locais e, principalmente, a sensação de que nada mudava mesmo. "As pessoas cansaram de falar e não serem escutadas", resume Dona Lúcia Ferreira, moradora há 42 anos na Rua das Acácias. "Mas o cansaço virou abandono, e o abandono trouxe problemas que ninguém mais resolvia."

Entre esses problemas estavam postes apagados em três quadras consecutivas, um terreno baldio que virou depósito de entulho e a falta de um espaço regular para crianças brincarem com segurança. Grupos de WhatsApp substituíram a associação como canal de reclamação, mas sem representatividade nem capacidade de negociação institucional.

A assembleia que lotou o salão comunitário

Tudo começou com um café. Em março deste ano, o professor aposentado João Pedro Almeida convidou oito vizinhos para conversar sobre a possibilidade de reativar a associação. A ideia era simples: nada de discurso político, nada de promessa vazia — apenas uma reunião para ouvir o que cada um considerava prioritário. O convite, feito de porta em porta e por mensagens no grupo do bairro, surpreendeu a todos: mais de oitenta pessoas apareceram no salão da Paróquia São Judas, numa noite de terça-feira chuvosa.

"Eu achei que viriam quinze, no máximo", conta João Pedro, agora eleito coordenador provisório do grupo. "Quando vi a sala cheia, entendi que o bairro estava esperando por isso há muito tempo." A assembleia durou quase três horas. Moradores jovens e idosos falaram sobre segurança, iluminação, limpeza urbana e transporte. Uma professora de escola municipal levantou a questão do acesso à cultura; um comerciante local defendeu feiras de bairro para fortalecer a economia de proximidade.

"Comunidade não se decreta — se constrói. E construção começa com escuta." — João Pedro Almeida, coordenador provisório

No final da noite, os presentes aprovaram por aclamação a reativação formal da associação, a elaboração de um estatuto revisado e a criação de comissões temáticas para iluminação, meio ambiente, cultura e segurança. Foi marcado um mutirão de limpeza para o sábado seguinte.

As demandas que voltaram à pauta

A comissão de iluminação levantou um mapa colaborativo de pontos escuros no bairro. Em duas semanas, moradores marcaram 37 locais com pouca ou nenhuma luminosidade, incluindo um trecho da Avenida Proença usado diariamente por estudantes da escola estadual vizinha. O documento foi protocolado na Secretaria de Serviços Públicos da Prefeitura de Campinas, com pedido de resposta em 30 dias.

A comissão de meio ambiente focou no terreno baldio da Rua dos Ipês, acumulador de lixo e foco de mosquitos. Após negociação com o proprietário — um idoso que mora em outro estado e não visitava o imóvel há anos —, a associação conseguiu autorização para realizar limpeza periódica enquanto se busca uma solução definitiva de compra ou cessão para área verde.

Já a comissão de cultura propôs a retomada da tradicional Festa de São João do bairro, interrompida desde 2016. "Não é nostalgia pura", explica a designer gráfica Camila Rocha, de 29 anos. "É sobre criar memória para quem chegou agora e reconectar quem já estava aqui." A proposta inclui barracas de comidas típicas preparadas por moradores, apresentações de grupos locais e uma roda de conversa sobre o futuro do Jardim Proença.

Próximos passos e o desafio da sustentabilidade

Reativar uma associação é mais fácil do que mantê-la viva — essa lição, os moradores conhecem bem. Para evitar os erros do passado, o grupo adotou princípios de transparência: atas publicadas em página simples na internet, prestação de contas mensal e rodízio de facilitadores nas reuniões. A ideia é que nenhuma liderança se perpetue indefinidamente no cargo.

A prefeitura, por meio da Coordenadoria de Participação Popular, sinalizou disposição para retomar o diálogo com a associação recém-reativada. "Reconhecemos a importância dos canais comunitários legítimos", disse a coordenadora em nota enviada à reportagem. "Estamos abertos a agendar uma audiência pública no bairro ainda neste semestre."

Para Dona Lúcia, a mudança já é visível — mesmo antes de qualquer obra concluída. "As pessoas voltaram a se cumprimentar na rua. Voltaram a perguntar 'como você está?' e esperar a resposta. Isso já é muito." O mutirão de limpeza do último sábado reuniu 54 voluntários e retirou mais de duas toneladas de entulho do terreno da Rua dos Ipês. Na hora do lanche — pão de queijo e café preparados por moradoras —, alguém sugeriu que aquilo deveria acontecer todo mês. A proposta foi aprovada na hora, sem precisar de microfone.

A história do Jardim Proença não é isolada. Outros bairros de Campinas vêm demonstrando interesse semelhante em reorganizar associações de moradores, segundo dados da Federação das Associações de Bairro da cidade. Em tempos de polarização e desconfiança institucional, a aposta em diálogo local parece ressurgir como alternativa concreta — menos espetacular que um protesto, mas potencialmente mais duradoura que uma manifestação pontual.

A Voz do Bairro acompanhará os desdobramentos da associação reativada e publicará atualizações conforme as comissões temáticas avançarem em suas demandas. Se você mora no Jardim Proença e quer participar, as reuniões abertas acontecem às terças-feiras, às 19h30, no salão da Paróquia São Judas.