Cultura

Projeto de biblioteca comunitária transforma praça em ponto de leitura

Sob a sombra de uma figueira centenária na Vila Industrial, estantes de madeira reciclada abrigam mais de 800 livros disponíveis para empréstimo gratuito — sem cartão, sem multa, apenas confiança entre vizinhos.

Ana Ribeiro
Por Ana Ribeiro ·
Ilustração de biblioteca comunitária ao ar livre

Uma ideia nascida de livros esquecidos

A Praça da Saudade, na Vila Industrial, sempre foi ponto de encontro — mas raramente associado a leitura. Isso mudou em fevereiro deste ano, quando a professora de literatura Fernanda Oliveira e o marceneiro aposentado Waldir Santos instalaram três estantes de madeira sob a figueira mais antiga do quarteirão. A proposta era direta: livros doados pela comunidade, disponíveis para qualquer pessoa levar, ler e devolver quando pudesse.

A inspiração veio de experiências semelhantes em cidades europeias e de uma constatação simples. "Muita gente tem livros parados em casa e muita gente quer ler mas não tem dinheiro para comprar ou transporte para ir à biblioteca municipal", explica Fernanda. "A praça já é pública. Por que não transformá-la em biblioteca também?"

O projeto — batizado de "Ler na Praça" — começou com 120 títulos arrecadados em uma campanha de doação via redes sociais e panfletos impressos em gráfica solidária. Em quatro meses, o acervo ultrapassou 800 livros, organizados por gênero em estantes que Waldir construiu com madeira de pallets descartados por supermercados do bairro.

Empréstimo por confiança: como funciona

Não há ficha de cadastro, aplicativo ou funcionário de balcão. O sistema é baseado em um caderno de registro simples — onde o leitor anota o título retirado e a data — e na confiança de que o livro voltará. Surpreendentemente, a taxa de devolução supera 85%, segundo levantamento feito pelos voluntários nos primeiros três meses.

"As pessoas cuidam do que sentem que é delas também", observa Fernanda. "Quando você empresta um livro com respeito, sem burocracia, a maioria responde com responsabilidade." Os poucos exemplares não devolvidos são considerados "em circulação estendida" — muitas vezes, reaparecem meses depois, às vezes acompanhados de livros extras como forma de agradecimento.

"Um livro parado na estante ajuda uma pessoa. Um livro emprestado pode transformar uma família inteira." — Fernanda Oliveira, fundadora do Ler na Praça

O acervo é diversificado por design. Há literatura brasileira e estrangeira, livros infantis ilustrados, manuais de horta urbana, biografias, poesia, quadrinhos e até uma seção de livros técnicos doados por um engenheiro aposentado. A cada quinzena, voluntários reorganizam as estantes e separam títulos para uma caixa de "novidades" — uma estratégia simples para manter o interesse de quem já visitou antes.

A rede de voluntários que mantém tudo funcionando

O Ler na Praça não seria possível sem uma rede de cerca de 15 voluntários que se revezam em tarefas distintas. Há quem cuide da manutenção das estantes, quem organize o acervo, quem conduza rodas de leitura aos sábados e quem prepare café numa mesa lateral — porque, como diz Waldir, "livro combina com conversa".

Entre os voluntários está o adolescente Lucas Martins, 16 anos, que começou frequentando a praça para estudar e acabou assumindo a catalogação digital informal do acervo — uma planilha compartilhada que permite consultar títulos disponíveis pelo celular. "Minha mãe dizia que eu passava tempo demais no celular", ele ri. "Agora ela reclama que eu passo tempo demais organizando livro."

A prefeitura, consultada pela reportagem, informou que avalia a possibilidade de apoio institucional ao projeto, mas que, por enquanto, não há previsão de verba específica. Enquanto isso, o grupo se mantém com doações de materiais, café e a energia de quem acredita que cultura não precisa de prédio luxuoso para existir.

O impacto que os números não contam

Além dos empréstimos registrados — cerca de 200 por mês —, o projeto gerou efeitos difíceis de quantificar. Mães passaram a levar filhos à praça aos sábados para escolher livros juntos. Idosos que se sentiam isolados encontraram motivo para sair de casa. Um grupo de leitura informal se formou espontaneamente, reunindo-se toda quarta-feira à tarde para discutir um capítulo por semana.

A escola estadual mais próxima firmou parceria com o Ler na Praça para incentivar alunos do ensino fundamental a visitarem a praça como atividade extracurricular. A professora coordenadora relata melhora perceptível no hábito de leitura entre os participantes. "Não é mágica", ela pondera. "Mas quando a leitura sai da sala de aula e vai para a praça, deixa de ser obrigação e vira descoberta."

Histórias individuais abastecem o caderno de registros com anotações marginais feitas por leitores. Uma mulher devolveu um romance com um bilhete: "Li em um dia. Não lia um livro inteiro há dez anos. Obrigada." Um menino de oito anos doou seus quadrinhos com a condição de que ficassem numa prateleira mais baixa, "para crianças como eu".

Para o futuro, os voluntários sonham com uma cobertura permanente para proteger as estantes da chuva forte de verão, ampliação do acervo infantil e a criação de uma "biblioteca itinerante" — uma bicicleta adaptada que leve livros para praças vizinhas que ainda não têm o projeto. Ambiciosos? Talvez. Mas quem montou uma biblioteca inteira com pallets e confiança sabe que o improvável é apenas questão de tempo e vizinhança.

Se você mora em Campinas e quer doar livros ou voluntariar-se, visite o Ler na Praça na Praça da Saudade, Vila Industrial, às quartas e sábados, das 9h às 12h. A Voz do Bairro continuará acompanhando o projeto e publicará, em julho, um guia de como replicar a iniciativa em outros bairros da cidade.